terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Teria Cristo realmente derramado sangue antes da cruz?



Qual sua opinião? E qual a opinião da Bíblia?


Sim e não. Depende. É claro que Jesus tinha sangue correndo em suas veias e, como ser humano completo, inclusive em suas funções bio e fisiológicas, poderia vez por outra, ter pequenos ferimentos e derramar sangue ao longo de sua vida, principalmente por causa de seu ofício de carpinteiro. Quando uma criança cai e se machuca, sai sangue. Não seria diferente com Jesus. Mas provavelmente o leitor esteja focalizando a questão do Getsêmani, quando se diz que Jesus teria derramado gotas de sangue. Isso é verdadeiro? Como podemos provar o “sim” ou o “não”; não por nossas opiniões particulares, mas pelas Escrituras? Apenas o evangelista Lucas narra esse detalhe. Se tivermos em mente que o Dr. Lucas era um brilhante médico, e que suas palavras escritas eram minuciosamente bem escolhidas e colocadas, como pesquisador e detalhista que era, e, se tivermos em mente que ele mesmo não afirmou que Jesus derramou gotas de sangue, mas sim “que o seu suor se tornou como gotas de sangue” (Lc.22:44), aí então percebemos que pequenos detalhes fazem toda a diferença e a diferença do todo. O estudante da Bíblia mais profundo e sério, o exegeta, não é aquele que examina as entrelinhas, mas aquele que examina as próprias linhas. O que está contido nas linhas tem que ser levado a sério; não está ali por mero acaso. O que não consta das linhas também não deve ser alvo de discussões ou interpretações dogmáticas, pois se Deus quisesse, Ele mesmo faria constar das linhas. Existem várias figuras de linguagem, e uma delas chama-se metáfora, também intercambiável com símile. Neste caso, trata-se de uma COMPARAÇÃO para indicar a forma incrível como Seu suor escorria pelo corpo, como que brotando aos jorros. Quando temos um ferimento, sabemos a forma como o sangue é liberado. O volume é intenso. Suor geralmente não escorre dessa forma. No entanto, o escritor sagrado quer enfatizar a agonia do Senhor, dando-nos o detalhe de como até seu suor era derramado de forma intensa, “como gotas de sangue caindo sobre a terra”. A ênfase está no suor, não no sangue. Veja que aqui não estamos ensinando nenhuma heresia, pelo contrário, estamos querendo fugir delas. As ferramentas de interpretação têm que ser coerentes em qualquer texto bíblico. Não se pode interpretar um texto pendendo para um lado, e outro texto pendendo para outro. Não se interpreta a Bíblia usando dois pesos e duas medidas. Dizer que o suor tornou-se literalmente em sangue, seria tão grave quanto dizer que o vinho e o pão da ceia são ou tornam-se literalmente no corpo de Cristo. Tomemos cuidado com as figuras de linguagem, antes de qualquer interpretação bíblica. Nosso assunto aqui não pode ser tomado de forma literal, senão, teremos que usar a mesma regra para outros textos. Em Js.7:5, o coração do povo teria se derretido e se tornado literalmente em água? Claro que não. O texto diz “como” água. Ou seja, à semelhança de água, e não exatamente água. Que diremos então de Is.13:7? Como as pessoas poderiam continuar vivas com o coração derretido? O espaço não nos permite copiar estes ou demais textos, pelo que o leitor precisará ter a Bíblia em mãos para confirmar o raciocínio. Ademais, gotas de sangue significam uma coisa. Gotas do suor vertidas na quantidade e velocidade como sangue (à semelhança de...), significam outra coisa. No texto grego consta, ipsis literis: “de o hidron autou ósei thromboi haimatov”, que, traduzido ao pé da letra, seria, “a transpiração dele mesmo era como se, por assim dizer, gotejamento sanguíneo (ou transpiração semelhante a uma hemorragia)”. A título de curiosidade, a palavra “agonia”, no texto, é uma transliteração, ou seja, abrasileirou-se o termo “agonia” que é total e originalmente grego, sem qualquer tradução, mas apenas trocando pelas letras de nosso abecedário. Idem para o inglês. Quanto a thrombos (gotas) e hematon (sangue) são termos científicos utilizados até hoje, de onde derivam trombose e hemostasia, patologias opostas entre si, além de tromboflebite, hemofilia, hemorragia, hemodiálise, etc. No entanto, o termo decisivo não é nenhum, nem outro, mas, sim, “ósei” (ou ósan), que aparece também em 2Co.10:9, ou seja, aquilo que “parece ser”, mas não que seja na realidade, qualquer que seja o elemento de comparação. A versão inglesa (AV – Authorized Version) não deixaria esse tipo de dúvidas aos seus leitores, visto que consta “and his sweat was as it were great drops of blood” (e Seu suor era como se fossem grandes gotas de sangue). Lucas, em sua meticulosidade científica, como médico e pesquisador que era, seria explícito ao denominar uma hemorragia ou coisa parecida, utilizando-se dos nomes científicos conhecidos em sua época, coisa que ele sempre fazia ao referir-se a sintomas e ocorrências físicas, diferentemente dos sinópticos. E.g., Lucas não diz “barriga d´água”, mas menciona um portador de hidropsia (Lc.14:2); “diferentes moléstias” (Lc.4:40); não diz leproso, mas “coberto de lepra” (5:12); esquife (7:14); espírito de enfermidade (13:11). Outro exemplo: Quando todos falam sobre o camelo passar pelo buraco de uma agulha, para Lucas faz diferença ser agulha de costura ou agulha cirúrgica, mas poucos analisam isso antes de tecerem suas analogias com portinholas de camelos, as quais, diga-se de passagem, surgiram nos púlpitos apenas após o quinto século, mas jamais nas Escrituras ou na tradição apostólica. Caso alguém lhe diga, hoje, "choveu a cântaros", como você interpretaria? Ou se outra pessoa dissesse: "ele correu tanto na maratona que estava suando a cântaros"; significaria vasilhas cheias de suor? A expressão mudou, mas o sentido continua o mesmo: enfatizar a quantidade absurda. Conforme dizem os especialistas, no caso da linguagem figurada "suar a cântaros", cântaro é um tipo de vaso bojudo e grande. "Chover a cântaros", "suar a cântaros", etc., quer dizer que se chove ou se sua demais, que se permite com isso encher cântaros, numa expressão exagerada. O inglês diria "rain cats and dogs", ou, chover muito fortemente. O mesmo exagero se usa pra demonstrar suor de maneira absurda. Só que na época do Dr. Lucas, não havia ainda essas figuras de linguagem que usamos hoje, mas existiam outras. Voltando ao nosso caso, João não conta a história do Getsêmani. Os demais evangelhos também não mencionam este detalhe, e, para surpresa do leitor, alguns manuscritos, mesmo de Lucas, sequer contém os vs.43 e 44. Indo além, se é verdade que o escritor aos Hebreus pretende ligar Hb.5:7 ao Getsêmani, então devemos levar a sério que ele se limita a mencionar apenas as lágrimas como fenômeno físico, nada mais. Alterações dos copistas também podem ser conduzidas pelo Espírito Santo. Mesmo assim, o copista sagrado não menciona “gotas de sangue”, mas, sim, “como gotas de sangue”. Outros textos bíblicos também nos fazem lembrar que nem tudo é tão literal como pensamos, e.g., Lm.1:1, quando diz que Jerusalém “tornou-se como viúva” (Deus teria morrido?). Ou em Lm.2:5 “Tornou-se o Senhor como inimigo...”. Ele não era, mas agiu como se fosse. Ou seja, coisa aparente, mas não literal. Era o que se via ao olhar. Em suma, seja como for, tomemos cuidado, não apenas com este texto, mas com todos os demais, pois “se tornou como...” significa uma coisa. “Se tornou em...” significa outra. Existem pessoas que remetem esse episódio à CROMIDROSE. Existem dois motivos importantes para não se relacionar a situação de Jesus no Getsêmani com cromidrose: Primeiro, porque a definição técnica de cromidrose seria: Suor colorido (não sangüíneo) observado nas axilas, devido à ação das bactérias cromogênicas sobre a secreção sudoral apócrina. É aquela transpiração que mancha a roupa. A causa são colônias de microorganismos que se instalam na pele muitas vezes devido ao estresse emocional (Jesus teria o estresse emocional, mas o Dr. Lucas não confundiria o suor colorido com sangue). A solução é o uso de fórmulas de desodorantes com antibiótico. Ou seja, cromidrose nada tem a ver com gotas de sangue, mas apenas existência de coloração da sudorese. Para firmar ainda mais este ponto, dizem os especialistas que: A sudação excessiva é a hiper-hidrose. O odor desagradável do suor é a bromidrose e é relacionada a associação do suor com bactérias da pele e, eventualmente a fungos. A alteração da cor é a cromidrose. A ausência de sudorese denomina-se anidrose. Em segundo lugar, e, por sinal, determinante, é o fato de que nem a Bíblia, nem a tradição dos apóstolos, sequer sustentam a idéia de gotas literais de sangue (o que nada tem a ver com cromidrose). Como a Palavra de Deus diz que na multidão de conselheiros se acha a sabedoria, aproveitei a oportunidade quando visitei pessoalmente a casa do nobre Pr. Russel P. Shedd, em 2004, junto com a reporter Adriana Dias, e sem pestanejar, lancei a questão a ele, que é mestre dos mestres em Grego. A pergunta foi curta e objetiva: "Dr. Shedd, em sua experiência, tanto cultural, quanto do grego, o senhor acha que Jesus teria realmente derramado gotas de sangue, literalmente?". Veio a resposta, mais curta e objetiva ainda: "Absolutamente, NÃO!". Muito embora, convém lembrar de outro fato: Não importa se um cristão famoso concorda ou não com isso. Também não importa se um médico ou qualquer celebridade acredite de forma diferente. Conheço médicos cristãos que são humildes ao ponto de solicitar esclarecimentos teológicos, visto que a ciência não trás conhecimento das coisas lá do alto. Conhecimento científico pode corroborar, mas jamais determinar fatos do mundo espiritual. O que importa não é o que fulano ou beltrano disseram. O que importa é o que a Bíblia diz. Em suma: Amados, discutir isso não é importante. Fazer teologia humana em cima disso, menos ainda. Por isso não podemos dar continuidade a idéias tradicionais ou incoerentes. Na verdade, o que importa é que Jesus Cristo derramou Seu precioso sangue na cruz do Calvário para pagar o preço do resgate das nossas vidas. Aleluia!

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FONTES E CONTRIBUIÇÕES:
  • Dr. Russell P. Shedd (PhD), pessoalmente, em sua residência, em 2004.
  • Dr. Marlos Coelho, chefe do serfiço de cirurgia torácica e endoscópia respiratória do Hospital Universitário Cajuru da PUC do Paraná, entre outros títulos (http://www.marloscoelho.com.br/conteudo_hiperhidrose.php?&idioma=1)
  • Luiz Carlos Cucé, professor da Faculdade de Medicina da USP (http://www.jornaldeuberaba.com.br/?MENU=CadernoB&SUBMENU=Saude&CODIGO=1083)
  • Sérgio Yamada, professor de dermatologia da Unifesp (http://www.jornaldeuberaba.com.br/?MENU=CadernoB&SUBMENU=Saude&CODIGO=1083)
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Aí estão os fatos. Agora você já pode tirar sua própria conclusão.

“Huic omnes prophetae testimonium perhibent” (At 10, 43) — Todos os profetas dão testemunho d’Ele.

Bordão do autor: Polêmico, talvez. Malicioso, jamais. Apenas uma abordagem sincera e franca, reavaliando pontos da “tradição humana”. Não Julgue. Se os argumentos que norteiam suas práticas eclesiásticas forem convincentes, eles, por si mesmos, sobreviverão! As questões, abordagens e arrazoados são nossos. As conclusões, consciência e convicção, devem ser suas. É do interesse de Deus que vivamos por conclusões próprias (Rm.14:5b), evoluindo o pensamento (Rm.12:2; Ef.4:23), arrazoando sempre (Is.1:18), enfim, “Repensando a Tese”. Se amanhã tivermos que, humildemente, mudar de opinião, não vejo nenhum problema nisso, desde que seja através de argumentos sólidos, despidos de toda falácia humana, por convicção e convencimento divino e amplamente bíblico, jamais por tirania ou imposição de grupo.

POR: DANIEL ATAÍDE
TEÓLOGO E CONFERENCISTA


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2. “As palavras convencem; os exemplos arrastam” (Agostinho).

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OPINIÃO DO LEITOR:

“Bom dia Daniel. Recebi seu e-mail e fiquei muito interessado no seu Boletim.”

Weslei da Silva A. Costa
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